Sonhos de uma moça.

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"Pensamentos valem e vivem pela observação exata ou nova, pela reflexão aguda ou profunda; não menos querem a originalidade, a simplicidade e a graça do dizer." (Machado de Assis)
"E quando eu te vi pela primeira vez, foi algo tão normal. Como qualquer outra pessoa civilizada, nos abraçamos e conversamos — foi o que demonstrei aparentemente, mas mal sabia a análise que fiz de você —, não durou muito e cada um seguiu o seu caminho, como assim deve ser. Desde então não sei pensar em outra pessoa. Perdoe-me. Sei que juramos uma amizade, mas chega a ser impossível não me entregar quando tu mostras teu sorriso, garoto. Consegui perceber em você algo que esses meus grandes olhos, como costuma dizer, não captaram. Aos poucos vamos nos dedicando ainda mais a essa amizade e, quando menos esperamos, vamos nos entregando, nos esquecendo de impor limites. Qual o nível máximo dessa brincadeira? Se perceberes, sou uma menina carente e o que fazes comigo não é nada legal. Posso sentir o teu abraço e o teu cheiro toda vez que fechos os olhos. Calma, não se afaste de mim, por favor. Sei que corro sérios riscos de não ser correspondida, mas deixe-me sentir cada palpitação do coração ao ficar do teu lado. Quando li teus escritos na parede da tua varanda, nunca imaginei que cada letra ou que cada fragmento de sentimento pudesse vir de um menino tão cretino como você. Lia letra-por-letra e algo estranho ocorria-me por dentro. Sentia-me doente, mas sem cura. Cada instante que teu corpo se aproximava do meu, era um novo risco de sentir a atração falar mais alto. Talvez daqui a alguns dias eu consiga controlar meus impulsos sentimentais. Torça para que isso aconteça também, essa decisão não dependerá apenas de mim. Não nego que gosto de você, porém é precipitado declarar um amor. O que sinto por você é estranho, tal qual o teu jeito. São implicâncias, são brincadeiras, somos nós. Até onde tudo isso vai dar? Esse papo de “deixa rolar” é fachada. Não quero nem deixar e muito menos fazer tudo rolar por ai. Pode cair em mãos erradas não é? Vai saber.
Estou encantada, não há para onde correr. Se vou para a direita, lá estará ocupada com os teus olhos. Se vou para a esquerda, lá estará ocupada com tua boca. Se vou para minha cama, lá estará reservada para meus sonhos… com você. Que seja uma amizade, mas que essa necessidade de ter um pouco de você para mim jamais morra. É isso, apenas."
  Thaís Lacerda (SDP
"A mais ou menos 16 anos atrás, eu não fazia ideia de como seria a minha vida, não saberia como deduzir o caminho certo e nem as coisas certas a fazer. Comecei a ser gerada dentro de uma pessoa que eu nem conhecia. Não sabia seu nome, sua idade, a cor do seu cabelo ou o modo como ela usava as palavras. “Afinal, o que é uma mãe?” — perguntava-me ao ouvir vozes do lado de fora daquele barrigão. Aos poucos eu ia ouvindo uma voz conversando comigo, dizendo que estava ansiosa para conhecer-me. Aquela voz doce, apaixonada, trabalhadora, amiga. Fui desenvolvendo um coração e ele aprendeu a bater com a ajuda daquela casinha, que uma futura-grande-mulher estava a me abrigar. Aquele meu coraçãozinho batia e cada vez que eu ouvia a voz doce que aquela moça tinha, ele batia ainda mais! O sangue dela pulsa em minhas veias e toda vez que sinto que “a barra está pesada”, o meu coração fica com medo. Passados 9 meses, no dia 24 de dezembro de 1995, eu nasci e não podia esperar a hora para conhecer essa mulher que me esperou durante tanto tempo, amando-me e jamais desistindo de mim. Abri meus olhos e vi a pessoa mais linda desse mundo! Pude conhecer quem me aguentou, quem suportou todas as minhas birras dentro daquela barriga, que suportou acordar todas as madrugas para me olhar dormir e para ver se estava realmente bem. Passado-se os anos aquela grande mulher foi chamada de “mãe” e desde então fui aprendendo o que uma mãe realmente faria. Ela sorria toda vez que eu aprendia a fazer algo novo. Ela me abraçava e me beijava sem motivos e tudo aquilo era tão bom. No meu primeiro dia de aula, ela me recebeu tão bem em casa, com um almoço preparado com tanto carinho, lembro-me das batatinhas fritas com rostinho feliz. E aquele rostinho feliz, a onde está? Depois de 5 anos, a mesma cena se repetiu. Tinha um outro bebê na mesma barriga onde fui gerada. Mais 9 meses de luta, né mãe? Finalmente meu irmão nasceu e eu já não estava mais só. Perdoe-me por todas as brigas sem motivos e por todas as vezes que te magoei e não soube ser uma boa irmã para o Ricardo, viu mãe? A nossa família crescia e o teu amor por nós, mesmo com tantas dificuldades a serem enfrentadas, jamais diminuía. Tens uma fábrica de amor no coração? Ensina-me, mãe, a fabricar esse sentimento junto de ti. Mãe, não sei como demonstrar ou descrever esse sentimento que tenho pela senhora, mas só sei que cada dia que passa, eu não suporto ficar longe de ti. Sinto falta de cada abraço, de cada beijo, de cada sorriso, de cada momento ao seu lado. Mesmo que todo esse pesadelo ainda esteja acontecendo, eu sei que a vontade que eu tenho de estar perto da senhora é a minha luz e ela sempre me diz que “Depois de toda tempestade sempre há um raio de sol”. Eu sei que tu és guerreira, trabalhadora, amável, doce, gentil, engraçada, comunicativa, abençoada, iluminada; sei também que diante de todas as dificuldades também nos ama e jamais esquece dos seus filhos. Mesmo que eu espere por cada sinal, por cada ligação, por cada encontro, eu não vou desistir de ter minha vida como era antes. Não vou parar de lutar para te encontrar todos os dias ao entrar em casa, não vou parar de lutar até ter aquele meu almoço ou aquela minha janta feita com tanto carinho. Não vou desistir de ser recebida, depois daquele longo dia de trabalho, com os teus abraços, com aquele sorriso já cansado de uma vida longa e sofrida."
  Thaís Lacerda (SDP